AS NOSSAS INCOERÊNCIAS DE CADA DIA

Presenciamos, frequentemente, condutas tão contraditórias que, por vezes, deixam-nos constrangidos. Pior é quando passam a ser vistas com naturalidade. Somos seres contraditórios, é verdade, no entanto, os princípios éticos, os valores, parecem cada vez mais relativizados, negligenciados. É impressionante a facilidade para falar algo e fazer diferente. O ditado “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço” tem cada vez mais sentido. As contradições de alguns comportamentos convidam-nos a fazer algumas apontamentos e exigem atenção. Existem aspectos relativos ao trânsito que permitem enumerar diversas incoerências. Sejam os pais que educam os filhos para respeitar e colaborar, mas param em fila dupla para deixá-los na escola. Os automóveis que desfilam com adesivos que não condizem com as atitudes dos motoristas. A imprudência que trafega na contramão do amor a si mesmo e ao próximo. Acompanha-se diariamente no trânsito uma acirrada disputa. É clara a má vontade do motorista, ao certificar que o outro quer e precisa entrar. Acelera, não dá passagem, não há cordialidade, não há educação. Mas há um crucifixo pendurado no retrovisor. Critica, ri, debocha da manobra do outro e estampa no vidro: Deus é fiel. Abre a janela, esbraveja e olha lá a frase: Jesus te ama, ora que melhora. É de assustar tamanha incoerência. Parece que o carro funciona como uma casa andante. Local onde a pessoa entra, sente-se protegida e segura. Não parece que está em contato com os outros do lado de fora. Agem com hostilidade, liberando o lado mais sombrio. Aquele reprimido com medo de não ser aceito e também não trabalhado, não conhecido e, portanto não integrado com ele. Muitos se acham tão espertos que têm a pretensão de se julgarem perfeitos motoristas. Mas escorregam na falta de educação, de generosidade e de humildade. Piedosos de fins de semana em seus templos e perseguidores pela vida afora. Sentem-se na obrigação de cumprir seus deveres religiosos, mas não comparecem na vida, no dia a dia. São distantes do grande mandamento: amar ao próximo como a ti mesmo. Reunimo-nos em igrejas para louvar e dispersamo-nos no mundo. Saudamos com a paz e levantamos a bandeira que incitam tantos preconceitos. Tem-se também a imprudência. Causa de tantas mortes no trânsito. Transgride-se a lei, ultrapassa onde é proibido, não trafega na velocidade que é permitida. Morre e mata, contribuindo, assim, para triste estatística. Assistimos paralisados a acidentes graves e salta aos olhos a frase “tudo posso naquele me fortalece”. E as outras tantas incoerências existentes? Um semáforo interno sinaliza uma pausa ao mirar nessa amostragem infelizmente real do trânsito. Essas são questões que estão presentes na vida. Por que não parar, examinar o que lançamos como flechas e tratar disso com cuidado? Ponderar sobre nossa aspiração verdadeira e essencial? Pode-se aprofundar um pouco, identificar e acolher amorosamente as tantas outras incoerências diárias, aceitar essas emoções como parte de si e possíveis de transformações. Pelo compromisso que se tem com a fé, com a ética, entende-se mudança no estilo de vida, diferenças no comportamento. Mas isso requer mais, requer que não sejamos repetidores, requer desejo e atitude de fazer diferente. É fato que haja conflitos, incoerências. Ter fé, crer, querer viver eticamente, não nos deixa imunes, somos humanos e como tal erramos, descuidamos. O convite é para uma pausa e estar ao encontro com a alma, reconhecer nossas incoerências, aceitar, restaurar a harmonia interior, reconhecer-nos como realmente humanos, assimilar as fraquezas e tentar diferente, numa outra perspectiva, transformar-se. E esse é um exercício diário, incessante e profundo para sair de tais comportamentos incoerentes e desnorteantes. Tomara que após a pausa procuremos, sobretudo, abandonar comportamentos que só fazem entristecer e tornar a vida difícil. Fazer melhores escolhas, tornar-se mais tolerantes e facilitadores da convivência. Aí sim: dirigido por mim, guiado por Deus. E você como tem transitado pela vida? Odília Grilo (Psicóloga).

Postagens relacionadas

Rebeca foi escolhida ao dar de beber aos camelos do servo de Isaque.(Gn 24,14-24) A samaritana foi convertida por causa de um gole de água. (Jo 4,7) Jesus provavelmente tinha sede quando pediu àquela mulher de outro povo, de outra religião e de outros costumes que lhe desse

Ver completo

“Seria uma bênção acordar sangrando. Haveria testemunhas para esse fato impossível de ser ignorado. Há sangue! Procura-se por um ferimento, uma causa, um trauma. Ninguém sangra à toa. Mas há quem sangre de forma secreta, silenciosa, solit&

Ver completo

Nos dias atuais muitas queixas  resumem-se numa composic¸a~o variada de tons sombrios e melanco´licos. Eles dissipam o colorido e da~o a sensac¸a~o de que todos os dias sa~o iguais, que nada de especial acontece. Invadem de desa^nimo todo o ser, como se a vida fosse uma mesmic

Ver completo

"Assim como o sol derrete o gelo, a gentileza evapora mal-entendidos, desconfianças e hostilidade" Albert Schweitzer   A gentileza é importante para o entendimento e prática desse atributo considerado essencial para o bem-estar humano. Ser gentil &eacut

Ver completo

“Amigo é coisa para se guardar/ No lado esquerdo do peito/ Mesmo que o tempo e à distância digam "não"/ Mesmo esquecendo a canção/ O que importa é ouvir/ A voz que vem do coração”. Amizade é o relacionament

Ver completo

OS PORQUÊS DA CRÍTICA           A coisa mais fácil do mundo é criticar o outro sem procurar saber por que ele diz o que diz e por que faz o que faz. Na Igreja Católica, o caminho mais fácil é criticar o

Ver completo

Psicologia infantil é a área da psicologia responsável por investigar e estudar as manifestações da mente da criança, incluindo pensamentos (medo, morte...), características físicas (roer unhas, xixi na cama, mordidas...) , lingüíst

Ver completo