A Quaresma: Um Caminho de Conversão e Liberdade
A Quaresma é, sem dúvida, um dos tempos mais profundos e belos do calendário litúrgico. Durante 40 dias, a Igreja nos convida a um retiro espiritual em preparação para a grande festa da nossa fé: a Páscoa da Ressurreição.
Muitas vezes, porém, o verdadeiro sentido desse tempo se perde em tradições vividas no automático ou em compreensões equivocadas sobre o que Deus realmente pede de nós. Portanto, a Quaresma não é um tempo de tristeza, mas sim um período de “treinamento intensivo” para libertar o nosso coração daquilo que nos afasta do amor de Deus.
O Fundamento Bíblico da Quaresma
Primeiramente, o número 40 tem um forte simbolismo na Bíblia, representando sempre um tempo de provação, purificação e preparação. Recordamos, por exemplo, os 40 anos que o povo de Israel passou no deserto antes de chegar à Terra Prometida e, de modo muito especial, os 40 dias que Jesus passou no deserto antes de iniciar sua vida pública.
No deserto, Jesus foi tentado, mas venceu o demônio através da Palavra de Deus e da fidelidade ao Pai. Consequentemente, a Quaresma é o nosso próprio deserto espiritual. É o momento de encararmos nossas tentações e fraquezas de frente, fortalecidos pela graça de Deus.
Os Três Pilares para Viver a Quaresma
Além disso, o Catecismo da Igreja Católica e o próprio Jesus, no Evangelho de Mateus (Mt 6, 1-18), nos apresentam três práticas fundamentais para viver bem este tempo:
- A Oração: O momento de nos conectarmos intimamente com Deus, ouvindo Sua voz e alinhando nossa vontade à dEle.
- A Esmola: O exercício da caridade que nos tira do egoísmo e nos faz enxergar o Cristo no irmão que sofre.
- O Jejum: A disciplina do corpo e da vontade, que nos ensina a depender mais de Deus do que das coisas materiais.
O Verdadeiro Sentido do Jejum Quaresmal (Não é Dieta!)
Atualmente, existe uma grande confusão sobre o que de fato é o jejum quaresmal. Muitas pessoas aproveitam a Quaresma para cortar doces, refrigerantes ou carboidratos com o objetivo oculto de perder peso ou melhorar a saúde física. Embora a saúde seja importante, no entanto, o jejum quaresmal não é uma dieta estética, é uma dieta espiritual.
O verdadeiro jejum quaresmal tem um propósito muito mais elevado: domar a nossa própria vontade. Quando dizemos “não” a uma necessidade legítima do nosso corpo (como o alimento), estamos, na verdade, treinando a nossa alma para conseguir dizer “não” ao pecado quando formos tentados.
Por conseguinte, o jejum prova para nós mesmos que o espírito é mais forte que a carne, e que a nossa fé é maior que os nossos vícios. Como ensina a doutrina da Igreja, a privação voluntária nos ajuda a adquirir o domínio sobre os nossos instintos e nos concede a liberdade de coração. Afinal, se não conseguimos controlar o que entra pela nossa boca, como controlaremos o que sai dela (como fofocas, mentiras e julgamentos)?
Como Definir um Propósito para o Jejum Quaresmal?
Para viver a Quaresma com profundidade, o seu propósito (ou penitência) não deve ser escolhido de forma aleatória. Em vez disso, ele precisa tocar na sua ferida. Aqui estão os passos para definir um bom jejum quaresmal:
- Identifique o seu vício dominante: Faça um exame de consciência honesto. Você é muito orgulhoso? Impaciente? Apegado ao celular? Consumista?
- Escolha uma penitência que combata esse vício: Por exemplo, se o seu problema é a impaciência no trânsito, o seu jejum pode ser o silêncio e a oração no carro, em vez de ouvir rádio. Se é o apego às telas, restrinja o uso das redes sociais.
- Una o jejum quaresmal à oração e à caridade: Um sacrifício sem oração é apenas passar fome. O dinheiro ou o tempo que você economiza com a sua penitência deve ser direcionado para ajudar alguém que precisa (esmola) e para estar com Deus (oração).
- Faça em segredo: Como Jesus ensinou, não mude o semblante para mostrar aos outros que está praticando o jejum quaresmal. Esse sacrifício é uma oferta íntima de amor entre você e Deus.
O Sacramento da Reconciliação: O Retorno ao Abraço do Pai
Ademais, de nada adiantam nossas penitências e o nosso jejum quaresmal se o nosso coração permanece sujo pelo pecado. A Igreja nos convida, especialmente neste tempo, a buscar o Sacramento da Confissão (ou Reconciliação). É o momento de lavar a alma no sangue de Cristo e retomar o estado de graça para celebrarmos dignamente a Páscoa.
Muitos têm medo ou vergonha de se confessar, mas o confessionário não é um tribunal de condenação, é um tribunal de misericórdia. Para fazer uma confissão frutuosa, siga estes passos fundamentais:
- Oração Preparatória: Antes de tudo, peça ao Espírito Santo que ilumine a sua mente para que você se lembre dos seus pecados e lhe dê a coragem de assumi-los.
- Um Honesto Exame de Consciência: Coloque-se diante dos Dez Mandamentos da Lei de Deus e dos preceitos da Igreja. Avalie seus pensamentos, palavras, atos e omissões. Onde você falhou com Deus, com o próximo e consigo mesmo?
- Arrependimento e Propósito de Emenda: A contrição é a dor na alma por ter ofendido a Deus. Junto com ela, deve vir o firme propósito de não mais pecar. Se confessar planejando cometer o mesmo pecado amanhã invalida o sacramento. É preciso lutar genuinamente contra o vício.
- A Confissão de Fato: Vá ao sacerdote, que ali age na pessoa do próprio Cristo (in persona Christi). Seja claro, objetivo e honesto. Não esconda pecados graves por vergonha, pois Deus já sabe de todos eles e apenas aguarda o seu pedido de perdão.
- A Penitência e a Reparação: Após receber a absolvição, cumpra a penitência dada pelo padre o mais rápido possível. Além disso, esforce-se diariamente para manter a graça recebida, evitando as ocasiões e ambientes que o levam a pecar novamente.
Em resumo, a Quaresma é um convite à liberdade e à cura. É o tempo favorável para rasgar o coração no confessionário, abandonar os vícios que nos escravizam por meio do jejum quaresmal e permitir que a graça de Deus nos transforme em pessoas novas, prontas para celebrar a ressurreição de Cristo com a alma limpa e cheia de esperança.





